Olá, queridos amigos da Lady Oscar,Sejam Bem Vindos!
Como vocês acompanharam por aqui, eu já havia feito um breve comentário sobre a participação histórica da mestre Riyoko Ikeda no aclamado talk show japonês WEEKLY OCHIAI, apresentado por Yoichi Ochiai. O programa, que foi ao ar no último dia 20 de maio de 2026, teve uma hora e vinte e dois minutos de pura lucidez intelectual. No entanto, após me debruçar sobre os resumos detalhados dessa conversa monumental, percebi que apenas um comentário inicial não faria justiça. A profundidade das respostas da sensei exige uma verdadeira resenha analítica completa.
Esta entrevista nos chega como um presente perfeito de celebração: afinal, no dia 21 de maio, comemoramos o marco histórico de 54 anos desde o início da jornada de A Rosa de Versalhes (Berubara), iniciada em 1972. Ver a autora atravessar mais de cinco décadas de história com uma visão tão afiada e atual é um privilégio que arrepia qualquer fã.
Abaixo, faço uma análise aprofundada de toda a entrevista, destrinchando os pontos que mostram por que Berubara continua uma obra viva, pulsante e extremamente necessária.
Parte 1: A Gênese de Oscar e a Filosofia da Liberdade Total
A entrevista abre com uma daquelas declarações que tocam o coração de quem cresceu acompanhando a obra: «Meus pensamentos são inteiramente representados por Oscar. Suas palavras e seu modo de viver são o meu ideal.» Ver a criadora se espelhar em sua criatura mais famosa mostra que Oscar nunca foi um mero produto comercial, mas a projeção dos valores mais caros da própria Ikeda.
O ponto de partida para o nascimento da personagem revela o faro histórico apurado da autora. A intenção inicial de Ikeda era escrever sobre o comandante real das Guardas Francesas que, em 14 de julho de 1789, tomou a decisão de marchar até a Bastilha, abandonando a Coroa para se aliar ao povo. Contudo, a mestre confessou com honestidade: «Eu tinha vinte e quatro anos. Não conseguia imaginar a vida cotidiana de um militar homem. Então, fiz dela uma mulher.»
Análise: Essa decisão, tomada por uma necessidade prática aos 24 anos, acabou se tornando uma das maiores subversões da história dos quadrinhos mundiais. Ao transformar o comandante em uma mulher criada como homem, Ikeda abriu as portas para uma discussão revolucionária sobre identidade e gênero em plena década de 1970.
Ao resgatar a filosofia da obra, Ikeda reafirmou sua frase favorita: «O ser humano, qualquer que seja a sua condição, não pertence a ninguém. É um ser livre.» Mas o ápice analítico está na forma como ela enxerga o desfecho de sua protagonista. A autora explica que, no final da história, a própria Oscar se corrige ao compreender que a liberdade de espírito é incompleta se for apenas interior. É aí que surge a poderosa citação: «Tudo, até o último fio de cabelo, deve ser livre.»
Essa frase, inclusive, foi incluída no filme animado de 2025, e a própria Ikeda-sensei revelou ter se emocionado fortemente na pré-estreia ao vê-la ganhar vida na tela grande.
Análise: Essa evolução do pensamento de Oscar é uma escolha narrativa precisa, consciente e profundamente política, afastando qualquer noção de que o fim da obra tenha sido um mero "cedimento sentimental". Para a autora, a verdadeira liberdade não pode ser abstrata; ela precisa ser material, social e econômica. Não adianta ser livre apenas para amar ou pensar se as estruturas do mundo ao seu redor te acorrentam à miséria ou à submissão.
Parte 2: O Olhar Cortante Sobre o Presente — Sociedade, IA e Takarazuka
Se a primeira parte da entrevista olhou para o passado, a segunda foi a mais afiada e cortante de todas. Quando questionada por Yoichi Ochiai se o Japão de hoje é um país livre, a resposta da sensei foi um banho de realidade: «É difícil. Depende de como se entende a liberdade. Talvez quem esteja do lado dos vencedores do capitalismo seja livre. Muitos outros não são.» E ao ser perguntada se vivemos em uma época de igualdade de gênero, ela foi categórica: «Não penso assim.»
Foi nesse momento que Ikeda proferiu o que podemos chamar de título moral de toda a conversa:
«O fato de Berubara ainda ser tão requisitado pelas mulheres hoje em dia é também a prova de que a sociedade ainda não amadureceu.»
Análise: Essa frase é uma paulada de lucidez. Se uma obra escrita em 1972, que discute a emancipação feminina e a quebra de barreiras de gênero, ainda é lida como um refúgio e um clamor pelas mulheres em 2026, significa que o mundo falhou em resolver os problemas que Ikeda denunciava há 54 anos. Ela relembrou que, nos anos 70, as mulheres nas empresas eram contratadas apenas para servir chá ou como secretárias, sendo obrigadas a se demitir quando casavam. O fato de as leitoras enviarem cartas em massa dizendo «Eu também gostaria de ter um André ao meu lado» mostra que o anseio por um companheiro que respeite a mulher como igual e apoie sua liberdade ainda é uma ferida aberta na sociedade.
A mestre também não hesitou ao falar sobre a Inteligência Artificial: «Não utilizo e não quero ter envolvimento com isso. Temo que ela acabe tirando dos seres humanos muitas de suas capacidades criativas.» Uma visão firme de quem entende o valor do suor e do toque humano na arte.
Além disso, trouxe um bastidor fascinante sobre a prestigiada companhia Takarazuka Revue. Quando a adaptação de Berubara foi proposta em 1974, houve uma enorme resistência interna. O argumento dos tradicionalistas era: «Um mangá no palco de uma companhia com a nossa tradição? Inadmissível.» O tempo passou e o resto é história: a peça se tornou o maior sucesso e o grande pilar da história do próprio grupo.
Parte 3: As Raízes de uma Artista Revolucionária.
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| Créditos: Imagem da página Ialiana Lady Iscar Fan Club Italian |
Para fechar com chave de ouro, a entrevista explorou o que de fato moldou a personalidade de Riyoko Ikeda. Descobrimos que seu despertar de consciência começou na infância, na escola primária, ao ver a famosa pintura realista russa "Os Retalhadores do Volga" (de Ilya Repin).
A imagem causou uma ferida emocional profunda na menina: «Senti uma indignação imensa com a ideia de que um ser humano pudesse fazer outro ser humano passar por aquilo. E depois, ao observar os retratos que Repin fez dos revolucionários russos no momento em que eram presos, compreendi — mesmo sendo apenas uma criança — que existe algo no mundo que é mais importante do que a própria vida.»
Na adolescência, sua visão foi moldada por outro ato de coragem monumental: o dia em que o pugilista Muhammad Ali recusou o recrutamento para a Guerra do Vietnã, perdendo seu título mundial e colocando a carreira em risco por suas convicções. Ikeda confessou sua própria vulnerabilidade diante disso: «Eu sempre me pergunto se eu seria capaz de fazer o que ele fez. (...) Não aceitar a situação como ela se apresenta exige uma coragem verdadeiramente monumental.»
Mas o verdadeiro alicerce de sua vida foi revelado quando ela relembrou que, aos 18 anos, na formatura, seu professor do clube de estudos sociais (onde debatiam Masao Maruyama) escreveu uma frase à mão para ela. Diante das câmeras do WEEKLY OCHIAI, a sensei fez questão de reescrever essa mesma frase em uma lousa:
«O jogo dos fracos é sempre o lado certo. Siga este princípio firmemente.»
Análise: Essa frase explica absolutamente tudo. Explica por que ela escreveu sobre a Revolução Francesa, por que deu voz aos oprimidos e por que dedicou dez anos de sua vida e suas economias pessoais para financiar, do próprio bolso, um teatro lírico de ópera para dar chances a jovens cantores em início de carreira — projeto que ela só parou quando suas economias acabaram, adotando o que ela chama de estilo de vida "Saldo Zero".
Conclusão e Agradecimentos
A Rosa de Versalhes não é apenas um clássico; é uma obra imortal porque sua criadora viveu e respira os valores que colocou no papel. A luta de Oscar por uma liberdade total e real continua sendo o farol da vida de Riyoko Ikeda e, consequentemente, de todos nós.
Para encerrar, deixo aqui meus mais calorosos abraços e um agradecimento profundo à querida Raffaella, do Lady Oscar Fan Club Italia. O trabalho impecável dela em cobrir e traduzir essa entrevista monumental foi o que permitiu trazermos essa análise rica e 100% fiel aos fatos para o nosso blog. Grazie mille, Raffaella!
Enfim, já havia comentado, mas como são resumos da entrevista e ficaram separados, resolvi juntar tudo e fazer uma resenha. Para quem quiser ler a tradução da tradução, que fiz do Lady Oscar Fan Club Italia, deixo aqui as Partes 1, 2 e 3)
























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