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quarta-feira, 5 de agosto de 2026

O Impacto do Portão: Lady Oscar (A Rosa de Versalhes): Que mangá extraordinário! Tradução do artigo + Análise Crítica.


Olá, queridos amigos da Lady Oscar, Sejam Bem Vindos!



Esses dias, bati o recorde em traduzir artigos para disponibilizar aqui no blog, e hoje, me deparo com um texto bem interessante publicado originalmente em japonês no portal Oita-Press.

Trata-se de um artigo fascinante que mergulha no universo de A Rosa de Versalhes (ベルサイユのばら), analisando o impacto profundo dessa obra-prima da mangaká Riyoko Ikeda, a complexidade de seus personagens inesquecíveis como Oscar e Maria Antonieta, e a forma como a ficção se entrelaça com os grandes eventos da Revolução Francesa.

Decidi traduzir o conteúdo na íntegra, com o auxílio do tradutor do Google. Como estudo japonês básico no Kumon, se algum leitor entender o idioma e encontrar algum erro — e quiser me ajudar a corrigir —, eu agradeço muito!

Vale notar que o artigo original não continha imagens, então adicionei algumas por conta própria para ilustrar o post e deixar a leitura ainda mais visual.

Abaixo, você confere a tradução completa e, logo em seguida, trago minhas críticas e comentários pessoais sobre este artigo tão especial.



O Impacto do Portão: O Gabinete do Tigre (5) - Lady Oscar (A Rosa de Versalhes): Que mangá extraordinário!

 Lamento não ter tido a ideia de ler mangás shōjo quando eu era jovem. Se eu tivesse descoberto A Rosa de Versalhes mais cedo, certamente teria sido tomado por uma enorme vontade de aprofundar meus conhecimentos sobre a Revolução Francesa, a história da França e a história europeia. Como optei por estudos sociais com foco em história mundial no ensino médio, essa sensação é ainda mais forte.

A Rosa de Versalhes foi serializada pela mangaká Riyoko Ikeda de 1972 a 1973 na revista semanal Margaret (Editora Shueisha) ao longo de 82 semanas. Trata-se de um drama humano que tece uma história misturando fatos históricos e ficção, retratando o caos da França rumo à revolução e os bastidores desse período.

Quem seria o verdadeiro protagonista desta história? Como cada leitor desenvolve um apego especial por diferentes personagens, as opiniões se dividem: "É claramente a Oscar", ou "Não, são os dois: Maria Antonieta e Oscar".

No posfácio da autora, publicado junto aos volumes da Margaret Comics, Ikeda registra que desenhou a obra tendo três protagonistas centrais: Oscar, Maria Antonieta e Fersen.

Oscar é uma personagem fictícia, sem a qual a narrativa simplesmente não existiria. Pode-se dizer que ela é o núcleo entre os três protagonistas.

Filha da família Jarjayes, foi criada como menino e tornou-se militar. O vislumbre de sua essência feminina por trás de sua rigorosa disciplina desperta profunda empatia, enquanto sua elegância e bravura conquistaram o coração de inúmeros leitores.

Na reta final da história, fiquei absolutamente fascinado pela decisão da Oscar de se rebelar contra a nação. É exatamente isto o que chamamos de uma alma em transe. Contudo, eu nunca esperava que André — com quem ela finalmente havia se unido — tomasse um tiro e morresse ali. E ver a própria Oscar perder a vida logo em seguida, durante a eclodida Tomada da Bastilha, foi um desfecho totalmente inesperado. Naquela época, muitos leitores certamente derramaram lágrimas.

Maria Antonieta, nem é preciso dizer, foi uma figura histórica real. Ela veio ainda criança para a França (na época da dinastia dos Bourbons) vinda da Áustria vizinha, governada pela Casa de Habsburgo, em um casamento arranjado com o príncipe herdeiro que viria a ser Luís XVI. Para minha vergonha, eu desconhecia completamente esses antecedentes, bem como o fato de ela ser filha da imperatriz austríaca Maria Teresa, até ler este mangá.

Como ela não tem uma índole ruim, não sentimos aquela aura típica de "vilã" que costumam lhe atribuir ao longo desta obra. A grande tragédia de Maria Antonieta talvez tenha sido justamente a sua ignorância — fruto inevitável de ter nascido e crescido como uma verdadeira princesa —, desconhecendo por completo as realidades do mundo. Ela acreditava erroneamente que as regras do Palácio de Versalhes eram as regras de toda a sociedade.

A noção de dinheiro dentro do Palácio de Versalhes pertencia a outra dimensão. E esse dinheiro vinha dos impostos pagos pelo povo comum. Enquanto os cidadãos eram forçados a viver na miséria, lutando para garantir o que comer a cada dia, o palácio apenas esbanjava recursos sem fim. Não é de admirar que a energia de raiva e ódio das pessoas comuns tenha explodido.

O conde sueco Hans Axel von Fersen também foi uma pessoa real. Sério, sincero e extremamente charmoso. No contexto de um tema tão denso quanto a Revolução Francesa, a trágica história de amor entre Fersen e Maria Antonieta transcende o papel de uma mera subtrama.

O comportamento dos principais personagens masculinos — como Fersen, André, Alain e Girodelle — traz lições valiosas que devemos admirar. Falando em Girodelle, que tem um papel relativamente menor entre esses quatro, a cena em que ele se afasta de Oscar exala pura "estética masculina".

De certa forma, a narrativa encerra suas cortinas na guilhotina, o grande símbolo da Revolução Francesa. A execução do rei Luís XVI já havia se consumado. A imagem de Maria Antonieta diante da guilhotina, com seus cabelos curtos e vestida com um traje branco e simples balançando ao vento, é marcante. De todas as fases em que Maria Antonieta foi retratada desde a sua juventude, essa última aparição final pareceu-me a mais bela de todas. Adeus...

No posfácio, Riyoko Ikeda define esta obra como "o monumento à sua própria juventude". Sem dúvida, ela dedicou uma paixão avassaladora a esse projeto. A Rosa de Versalhes é uma obra que ultrapassa amplamente as fronteiras do mangá shōjo. (Tigre)





Fim.


Análise Crítica: O Olhar Fascinado de "O Tigre" sobre a Eternidade de A Rosa de Versalhes

O texto de "Tigre" capta com precisão cirúrgica a essência do que torna A Rosa de Versalhes (Berusaiyu no Bara) um fenômeno atemporal. Mais do que um simples relato de leitura, o artigo funciona como o testemunho sincero de um leitor que foi profundamente transformado ao cruzar com a obra-prima de Riyoko Ikeda — um arrependimento comum entre muitos leitores que, por preconceito geracional ou de gênero editorial, demoraram a descobrir a grandiosidade dos mangás shōjo clássicos.

Abaixo, desdobramos os principais pontos trazidos pelo autor sob uma perspectiva crítica, aprofundando o contexto histórico, a genialidade da autora e a construção dos personagens mencionados.

1. Riyoko Ikeda e a Revolução no Shōjo Manga

Como bem aponta o texto, a serialização na revista Margaret entre 1972 e 1973 marcou um divisor de águas. Antes de Ikeda, os mangás voltados para o público feminino eram frequentemente confinados a tramas melodramáticas mais intimistas ou escolares. Ao trazer a Revolução Francesa para o centro do shōjo, Riyoko Ikeda não apenas revolucionou o mercado — abrindo portas para o monumental sucesso comercial e crítico da obra —, mas também educou gerações de leitores sobre história europeia.

O próprio autor do texto confessa que seu interesse pela história da França nasceu ou foi impulsionado por essa leitura, evidenciando o poder pedagógico e narrativo que Ikeda imprimiu em sua "adolescência de papel e tinta". Chamar a obra de "um monumento à sua própria juventude" (termo usado pela própria mangaká) faz todo o sentido: Ikeda tinha apenas vinte e poucos anos quando começou a desenhar essa saga épica, canalizando uma energia criativa avassaladora.

2. O Triunvirato de Protagonistas e a Complexidade Histórica

A discussão sobre quem é o verdadeiro protagonista — se Oscar, Maria Antonieta ou Fersen — é o coração pulsante da recepção da obra.

  • Maria Antonieta e a Tragédia da Inocência: O texto acerta ao desconstruir a visão simplista de "vilã" frequentemente associada à rainha. Ikeda humaniza Antonieta sem eximi-la de culpa. A grande tragédia da soberana retratada no mangá não é a maldade intrínseca, mas a incompatibilidade brutal entre a realidade de privilégios absolutos de Versalhes e a miséria do povo. A incapacidade de compreender que a opulência da corte era financiada pelo sangue e pela fome do Terceiro Estado é o que torna a queda da rainha tão inevitável quanto dolorosa.

  • Hans Axel von Fersen e o Romantismo Trágico: A inclusão do conde sueco eleva o tom de melodrama cortesão, mas com uma densidade política marcante. O amor proibido entre Fersen e Antonieta funciona como um espelho melancólico do colapso de um mundo que rui.

  • Oscar François de Jarjayes: O núcleo gravitacional de toda a história.

3. Oscar François de Jarjayes: A Força do Mito e o Traço Inconfundível

A criação de Oscar — uma mulher criada como homem para servir à Guarda Real — é um dos maiores achados da ficção seriada do século XX. O texto destaca com sensibilidade a dualidade da personagem: a rigidez marcial contrastando com a delicadeza e a vulnerabilidade que emergem nos momentos cruciais.


A decisão de Oscar de abandonar os privilégios da aristocracia para se juntar ao povo na Tomada da Bastilha é o ápice dramático da obra. O autor do artigo descreve com precisão a catarse dessa sequência: ver a heroína se rebelar contra a própria coroa e, logo em seguida, sofrer a tragédia dupla da morte de André (o fiel escudeiro e amor de sua vida) e a sua própria queda na Bastilha.

É impossível falar de Oscar sem lembrar da estética que a consagrou. Embora o texto não cite diretamente os nomes, o impacto visual e a expressividade emocional dos personagens em A Rosa de Versalhes devem muito ao traço inconfundível de Shingo Araki e Michi Himeno na adaptação em anime de 1979 (que complementa perfeitamente o traço dramático de Ikeda no mangá com olhos expressivos, cabelos fluidos e uma sensação de movimento barroco).

4. A Estética da Honra e a "Melancolia Masculina"

Um ponto fascinante levantado por "Tigre" é a postura dos personagens masculinos. Fersen, André, Alain de Soissons e o conde de Girodelle representam diferentes facetas da masculinidade dentro de um contexto de crise.

A menção a Girodelle é particularmente refinada. Embora seja um personagem secundário e, por vezes, um rival romântico, a sua retirada graciosa e honrosa diante do amor intransigível de Oscar por sua pátria e por André demonstra a "estética masculina" da qual o texto fala: a nobreza de saber perder com dignidade e elegância, um traço marcante do romantismo trágico da autora.

5. O Fechamento com a Guilhotina

A descrição do desfecho com Maria Antonieta diante da guilhotina — com os cabelos cortados e a veste simples balançando ao vento — encapsula perfeitamente o lirismo agridoce de Riyoko Ikeda. A rainha prepotente e mimada do início da história purifica-se através do sofrimento, atingindo uma dignidade trágica em seus momentos finais. A imagem final evoca a grandiosidade de um império desmoronando não apenas por decretos políticos, mas pelas falhas humanas de seus protagonistas.

Considerações Finais

O texto de "Tigre" cumpre com louvor o papel de introduzir novos leitores à grandiosidade de A Rosa de Versalhes. Ele demonstra que a obra de Riyoko Ikeda não é um mero produto de sua época, mas um clássico literário e artístico que continua provocando reflexões profundas sobre liberdade, amor, dever e as engrenagens implacáveis da história. É a prova viva de que, quando um mangá shōjo atinge a maioridade criativa, ele se equipara às maiores epopeias da literatura mundial.




Espero que tenham gostado! Uma ótima semana amigos da Lady Oscar.

 


ady Oscar diz... Obrigada por sua visita! Volte sempre que quiser.

 


 






terça-feira, 4 de agosto de 2026

A Influência das Experiências de Riyoko Ikeda com Protestos Estudantis e sua Representação da Revolução Francesa em "A Rosa de Versalhes" ( Artigo Traduzido).


Olá, queridos amigos da Lady Oscar, sejam Bem Vindos!
 



 Recentemente, o Yahoo do Japão, trouxeram um artigo, publicado originalmente no Diamond, abordando a influência das experiências de Riyoko Ikeda com protestos estudantis e sua representação da Revolução Francesa em "A Rosa de Versalhes" (ベルサイユのばら).

Abaixo, trago a tradução integral deste texto para o português do Brasil. Mantive a estrutura original do texto e utilizei as mesmas imagens e divisões. Como não sou fluente em japonês — aprendo o básico no Kumon —, utilizei o Google Tradutor como auxiliar; caso você, leitor, seja fluente em japonês, encontre algum erro e quiser me ajudar, eu agradeço muito!



Tradução do Artigo: As Experiências de Riyoko Ikeda em Conflitos Estudantis e sua Influência na Descrição da Revolução Francesa em "A Rosa de Versalhes"

(Autor: Yasuo Nagayama)

As Origens Culturais e a Formação de Riyoko Ikeda

Quando se fala em grandes romances históricos do mangá shoujo dos anos 70, o primeiro nome que vem à mente é, sem dúvida, "A Rosa de Versalhes" (publicado na revista Weekly Margaret entre as edições 21 de 1972 e 52 de 1973), de Riyoko Ikeda.

Ikeda nasceu em dezembro de 1947, em Osaka. Filha de uma família de linhagem aristocrática (shizoku) e com um pai que era militar profissional, ela pertence à geração nascida após a guerra, tendo sido educada sob os preceitos da democracia pós-guerra nas escolas. Sua mãe era extremamente dedicada à educação, matriculando-a em uma imensidão de aulas extracurriculares: caligrafia, koto, cerimônia do chá, ikebana, canto vocal, piano, pintura, sorobã, inglês... Mais tarde, Ikeda ingressou no Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Educação de Tóquio. No entanto, como ela aspirava a se tornar uma acadêmica, seu pai cortou o apoio financeiro para seus estudos, o que a levou a escolher desenhar mangás para bancar seu próprio custo de vida e despesas universitárias.

No entanto, o sucesso não veio imediatamente. Quando ela levou seus originais a grandes editoras, apontaram sua imatura técnica e rejeitaram o material, fazendo com que ela debutasse no mercado de aluguel de mangás (kashihon manga), que possuía barreiras de entrada mais baixas. Até que os direitos autorais e remunerações começassem a entrar, ela enfrentou um período de vida extremamente rigoroso. Após aprimorar sua técnica desenhando no mercado de aluguel por dois ou três anos, ela finalmente recebeu chamadas de grandes editoras, consolidando sua estreia oficial.

"A Rosa de Versalhes" não se destacava apenas por seus traços esplêndidos; havia um esforço engenhoso para conferir uma expressão tridimensional ao mangá, além de incorporar ilustrações grandes e estilizadas em poses de pin-up integradas ao contexto narrativo (nos mangás shoujo dos anos 60, era comum que ilustrações de protagonistas usando vestidos suntuosos fossem inseridas como páginas coloridas independentes, totalmente desvinculadas da trama).

O Amor Abstinente de Oscar e André, Cultivado à Sombra da Revolução Francesa

A história começa no final do reinado de Bourbon sob Luís XV, quando a princesa Maria Antonieta da Áustria — filha da imperatriz Maria Teresa — é enviada ao Reino da França para se casar com o príncipe herdeiro (futuro Luís XVI). A narrativa retrata a vida na corte dominada pelas favoritas de Luís XV, a vida luxuosa e vazia após a ascensão de Luís XVI, o caso amoroso ilícito de Antonieta, o desperdício imprudente que levou à debilidade do Estado, culminando na Revolução Francesa e em seus desdobramentos.

Embora a base da estrutura narrativa tenha como referência a biografia clássica "Maria Antonieta", escrita pelo mestre da literatura biográfica Stefan Zweig, a originalidade de Ikeda — e o maior ponto de furor entre os leitores — reside na concepção de Oscar François de Jarjayes: nascida em uma linhagem de oficiais aristocratas e criada como mulher, ela atua como comandante da guarda do regimento de elite de Versalhes.

Oscar serve ao rei e à rainha, valorizando profundamente a nobreza de caráter e a amabilidade de ambos, mas ao mesmo tempo nutre uma profunda empatia pelas massas empobrecidas. Sustentando Oscar está seu leal criado, André; ambos compartilham um amor recíproco e abstinente...

O grande atrativo romântico da obra é o romance entre Oscar e André, bem como a relação proibida entre Antonieta — que desconhecia o amor devido a um casamento político — e o nobre sueco Fersen. Além disso, o amor trágico de Luís XVI, que percebe a infidelidade da rainha, mas opta por não censurá-la, desperta profunda comiseração.

A construção psicológica dessas figuras e a forma como revolucionários como Robespierre são retratados parecem beber de outras obras de Zweig, como "Maria Stuart" e "Joseph Fouché".

Por outro lado, em meio a essa grandiosa peça histórica que é "A Rosa de Versalhes", é possível que estivessem embutidos reflexos e sentimentos em relação à própria sociedade japonesa da época. O período em que Ikeda frequentou a universidade coincidiu com o auge dos conflitos estudantis. Sofrendo com o conflito de valores em relação à geração de seus pais, a própria Ikeda pertencia à Liga da Juventude Democrática do Japão (Minsei), ligada ao Partido Comunista, o que justamente refletiu sua ideologia na representação da Revolução Francesa (embora esta tratasse de uma revolução burguesa).

Posteriormente, Ikeda explorou o mundo das amizades e ciúmes de tom homoerótico em um clube social exclusivo de uma prestigiada escola feminina em "Dear Brother..." (1974), e mais tarde em "A Janela de Orfeu" (1975–1981), onde novamente colocou um protagonista com travestismo no centro da trama, retratando os turbulentos anos da Belle Époque, a Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa. Esta obra também se consolidou como um suntuoso grande romance histórico e uma dolorosa história de amor.


Fim

Minha Análise e Crítica: A Reconfiguração da História e o Espelho da Juventude Rebelde

A análise proposta por Yasuo Nagayama ilumina de maneira perspicaz uma das dimensões mais fascinantes e subestimadas da estética mangá dos anos 1970: a intersecção entre o rigor historiográfico europeu e o ativismo político da contracultura japonesa pós-guerra.

Ao conectar a biografia de Riyoko Ikeda à gênese de "A Rosa de Versalhes", Nagayama desfaz o mito de que o mangá shoujo da época era mero escapismo romântico. Pelo contrário, Ikeda utilizou o distanciamento histórico da França pré-revolucionária como um espelho crítico para interrogar as estruturas de autoridade, hierarquia e opressão. A militância de Ikeda na Juventude Democrática durante o turbulento clima dos protestos estudantis japoneses deu-lhe não apenas uma lente de leitura crítica das lutas de classe, mas uma sensibilidade aguda para compreender a tragédia da alienação institucional.

O grande trunfo analítico do texto reside em apontar como a figura de Oscar François de Jarjayes funciona como uma síntese perfeita dessa dualidade dialética: aprisionada pelas convenções aristocráticas e militares de sua classe, Oscar desperta progressivamente para a consciência social, encarnando o dilema do intelectual/burguês radicalizado que se volta contra seu próprio privilégio em prol da emancipação coletiva. A tragédia de Oscar e o sacrifício de André não são apenas ornamentos melodramáticos; eles refletem a seriedade ética e o fardo moral que a juventude politizada da geração de Ikeda sentia ao confrontar o establishment.

Ademais, a influência literária de Stefan Zweig — mestre da psicologia histórica que privilegiava o drama humano das grandes reviravoltas geopolíticas — permitiu a Ikeda elevar o formato do mangá a um patamar literário inédito. A genialidade de "A Rosa de Versalhes" permanece inabalável justamente porque consagra o melodrama íntimo e a grande política como forças inseparáveis, moldando a consciência de gerações de leitores dentro e fora do Japão.



Espero que tenham gostado! Daqui a pouco tem mais.

Desejo a todos uma linda semana, amigos da Lady Oscar!


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segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Excerto da entrevista "Manga Chat" com Riyoko Ikeda e Hiromi Sato. Tradução E Comentários 👇


Olá, queridos amigos da Lady Oscar, Sejam Bem Vindos!




Olá, pessoal! Tudo bem?

Conforme prometido, continuo garimpando entrevistas de Riyoko Ikeda para traduzir e disponibilizar aqui no blog. Nessa busca de hoje, um amigo meu, Frederico Cleberson, me deu alguns recortes de jornais — pelo menos é o que parecem ser —, contendo um excerto da entrevista "Manga Chat" com Riyoko Ikeda e Hiromi Sato.

O trecho traz uma análise sensível e perspicaz sobre a dinâmica entre Oscar François de Jarjayes e André Grandier, além de contextualizar a obra dentro da realidade social e política do Japão da década de 1970, conforme relatado pela própria autora. Pesquisando mais a fundo sobre essas imagens, descobri que já havia uma tradução compartilhada no Reddit, então deixo aqui os devidos créditos aos autores por lá!

Como o assunto é A Rosa de Versalhes (ベルサイユのばら), e eu havia prometido trazer todas as entrevistas que encontrar, decidi ir além: não vou apenas trazer o material, mas também preparar uma análise cheia de comentários para a gente debater junto.

Tradução abaixo 👇

Como o assunto é A Rosa de Versalhes, e eu havia prometido trazer todas as entrevistas que encontrar, decidi ir além: não vou apenas trazer o material, mas também preparar uma análise cheia de comentários para a gente debater junto.

Tradução abaixo 👇



Tradução abaixo 👇

"Enquanto a França se encontra em um estado de turbulência na véspera da revolução, o romance entre Oscar e André é um momento de brilho que cativa os leitores.

Apesar de terem crescido na mesma casa e ele ser o seu servo, André começa gradualmente a se apaixonar por Oscar. Como o amor deles é o de um aristocrata e uma plebeia, ele decide viver à sombra de Oscar. Oscar, percebendo os sentimentos de André, também tenta cultivar seu amor por ele. As mãos da audiência tremiam enquanto viravam as páginas quando o amor silencioso e apaixonado do casal se realizava.

'No começo, eu não tinha decidido que André seria o interesse amoroso de Oscar. Eu estava me perguntando se devia juntá-la com Fersen até a metade do percurso. Mas, enquanto desenhava, ele acabou se tornando naturalmente André,' diz Ikeda. O relacionamento entre os dois foi, na verdade, um pequeno ato de resistência às condições sociais do Japão dos anos 1970.

'Naquela época, não era aceito que homens e mulheres fossem iguais. Era um tempo em que as mulheres eram orientadas a ficar em casa, então, se uma mulher tentasse sair na sociedade, era severamente criticada.'

'Eu também recebia telefonemas de assédio dizendo: "Como você se atreve a desenhar mangás que incentivam as mulheres a avançar na sociedade," e um amigo meu me disse: "Você sabe, a felicidade de uma mulher é estar em casa." Eu sempre brigava com ele, dizendo: "Você deve estar brincando. Eu vou decidir o que me faz feliz." Essa era a época.'

'Acho que isso me levou a criar Oscar. Uma mulher que pode lutar em igualdade com os homens. Eu queria mostrar que as mulheres têm essa capacidade também. Acho que, nesse sentido, havia leitoras que conseguiram se identificar com ela.'

'No entanto, mesmo em A Rosa de Versalhes, Oscar é inicialmente menosprezada por seus subordinados. Se ela não dá um passo à frente, os homens são gentis com ela, mas o prego que se destaca é golpeado para baixo.'

'Eu queria criar algo que fosse lido por um público universal, então estou feliz que A Rosa de Versalhes continue a ser amado hoje.'

A presença de André se destaca. A imagem de um homem que deseja sucesso para Oscar e é devotado a ela era ainda rara na época.

'Naquela época, eu recebia muitas cartas de mulheres trabalhadoras dizendo: "Eu também quero um André!" (Risos) Homens que aceitassem que as mulheres estavam trabalhando, que permitissem que elas saíssem sozinhas na sociedade, e que as ajudassem e amassem. Não havia homens assim.'"

 


Análise e Comentários

1. A Gênese do Casal e a Liberdade Criativa

É fascinante pensar que o romance entre Oscar e André não estava escrito em pedra desde o início. A própria Ikeda confessou que cogitou emparelhar Oscar com o Conde de Fersen até a metade da obra. No entanto, à medida que os traços ganhavam vida no papel, a relação com André floresceu de forma orgânica, guiada pela lealdade inconicional e pelo crescimento mútuo. O amor entre os dois quebrava barreiras sociais intransponíveis: o abismo entre a nobreza e a plebe. Para viver esse sentimento sem destruir a honra de Oscar, André escolheu as sombras, enquanto Oscar aprendeu a corresponder a esse afeto de corpo e alma.

2. A Luta Silenciosa do Japão dos Anos 1970

O impacto de A Rosa de Versalhes se conecta diretamente com o contexto em que foi criado, entre 1972 e 1973. O Japão daquela década vivia sob estruturas sociais rígidas onde os papéis de gênero eram estritamente definidos. As mulheres eram fortemente encorajadas a permanecer no ambiente doméstico, e desafiar essa norma trazia consequências severas. Ikeda não apenas quebrou barreiras criativas como enfrentou reações diretas e hostis da sociedade da época, sofrendo assédio telefônico por ousar desenhar mangás que incentivavam a emancipação feminina.

A criação de Oscar — uma mulher forte, capaz de comandar tropas e lutar de igual para igual com os homens — foi uma resposta direta a essa pressão. A autora provou que as mulheres tinham capacidade total de liderança, embora precisassem enfrentar o custo de se destacar em um ambiente predominantemente masculino.

3. O Fenômeno "Eu Também Quero um André!"

Outro ponto revolucionário da obra é a figura de André. Em uma época em que o machismo estrutural era a norma, a imagem de um homem que apoiava genuinamente o sucesso da parceira, respeitava sua independência e a amava sem egoísmo era quase inédita na cultura pop.

Não é de se espantar que, nos anos 70, as leitoras trabalhadoras enviassem cartas a Ikeda dizendo: "Eu também quero um André!". Ele representava o parceiro ideal: aquele que não temia a força da mulher, mas que a incentivava a ocupar seu espaço no mundo com dignidade e amor.

Conclusão

Mais de cinco décadas após sua criação, A Rosa de Versalhes continua a ser amada por gerações de fãs ao redor do mundo. A genialidade de Riyoko Ikeda foi transformar a turbulência da Revolução Francesa no palco perfeito para discutir a liberdade, a igualdade de gênero e a coragem de ser quem se é. Oscar e André nos lembram que, mesmo nos momentos mais sombrios da história ou da sociedade, o amor genuíno e a busca pela igualdade são as maiores forças de transformação que existem.

Ver Riyoko Ikeda abrir o coração sobre o processo de criação de sua obra-prima nos lembra o porquê de ela ser muito mais do que um clássico dos mangás: A Rosa de Versalhes é um verdadeiro manifesto de coragem.

O que torna os relatos de Ikeda tão impactantes é perceber que a valentia de Oscar François de Jarjayes nas páginas espelhava exatamente a valentia da própria autora na vida real. Enfrentar telefonemas de assédio, pressões sociais e amigos conservadores para defender o direito básico das mulheres de decidirem o próprio destino exigiu dela a mesma garra de uma heroína revolucionária.

Ao transformar o romance entre Oscar e André em um ato sutil, porém poderoso, de resistência, Ikeda não apenas redefiniu a literatura shoujo, mas tocou profundamente o coração de gerações. Ela nos deixou uma lição eterna: seja na Paris de 1789 ou no Japão dos anos 1970, lutar por igualdade, autonomia e por um amor construído com respeito mútuo é um ato revolucionário que nunca perde a validade.


Espero que tenham gostado! Uma ótima semana amigos da Lady Oscar.

 


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domingo, 2 de agosto de 2026

Entrevista: Riyoko Ikeda reflete sobre a desigualdade de gênero em seus 20 e poucos anos e sobre manter-se fiel às suas convicções. ( Artigo Traduzido).


Olá, queridos amigos da Lady Oscar, sejam Bem Vindos!
 



 Resolvi traduzir mais algumas entrevistas de Riyoko Ikeda, já que ontem mesmo trouxe para cá uma entrevista onde a autora de "A Rosa de Versalhes (ベルサイユのばら)" abre o coração sobre lutas passadas e a juventude, a propósito de uma questão de vestibular — essa foi uma das melhores entrevistas dela que eu li, inclusive ela afirma que: "Oscar é o meu ideal".

Enfim, hoje me deparo com uma onde a autora abre o coração e novamente fala sobre desigualdade de gênero. Já traduzi outras sobre o mesmo assunto, mas como é de Ikeda, eu trago tudo para cá. Mantive a estrutura do texto original e usei as mesmas imagens. O artigo original está aqui para quem quiser ler. Segue a tradução:



Entrevista: Riyoko Ikeda reflete sobre a desigualdade de gênero em seus 20 e poucos anos e sobre manter-se fiel às suas convicções

O filme de animação A Rosa de Versalhes (Berubara) estreará nacionalmente em 31 de janeiro. Mais de 50 anos após o início da serialização do mangá, esta nova adaptação tem atraído enorme atenção. Entrevistamos a criadora, Riyoko Ikeda (77), para discutir as mudanças nos tempos ao longo das últimas cinco décadas, o fenômeno social gerado pela adaptação da Takarazuka Revue e suas reflexões sobre a vida. (Entrevista por Hideaki Sakurai)


Riyoko Ikeda


Key Visual from the movie The Rose of Versailles
Visual Chave do filme A Rosa de Versalhes - © Riyoko Ikeda Production / The Rose of Versailles Movie Production Committee]


A Rosa de Versalhes: Uma História de Amor e Destino em Meio à Revolução

A Rosa de Versalhes tem como cenário o final do século XVIII, durante a Revolução Francesa, centrando-se nas vidas de Oscar François de Jarjayes, uma mulher criada como homem e herdeira de uma família militar, e da Rainha Maria Antonieta, a nobre e elegante noiva vinda da Áustria. Através de seus destinos entrelaçados, a história explora o amor, o destino e as lutas de indivíduos arrebatados pelas marés da história.

Originalmente serializado na Weekly Margaret (Shueisha) de 1972 a 1973, o mangá abrange dez volumes. Posteriormente, quatro novos volumes com episódios adicionais foram lançados em 2014, marcando as primeiras adições do gênero em 40 anos. A série já vendeu mais de 20 milhões de cópias até o momento.

Pioneirando o conceito de media mix, A Rosa de Versalhes foi adaptado para a Takarazuka Revue em 1974, seguido por um anime para TV em 1979, ambos causando uma verdadeira sensação cultural. O novo filme de animação é produzido pelo estúdio MAPPA, conhecido por sucessos como Jujutsu Kaisen.

Scene cuts from the movie The Rose of Versailles
 Cortes de cena do filme A Rosa de Versalhes - © Riyoko Ikeda Production / The Rose of Versailles Movie Production Committee]


Scene cuts from the movie The Rose of Versailles
Cortes de cena do filme A Rosa de Versalhes - © Riyoko Ikeda Production / The Rose of Versailles Movie Production Committee]


A Rosa de Versalhes Torna-se um Fenômeno Social

Surpresa com o Sucesso e Reconhecimento no Aeroporto

— Apesar de sua popularidade duradoura, é surpreendente saber que a serialização de A Rosa de Versalhes durou apenas dois anos. Ao contrário das transições rápidas de mangá para anime de hoje, sua primeira adaptação midiática ocorreu através da Takarazuka Revue.

Ikeda:

Foi verdadeiramente um passo pioneiro para a adaptação de mídia. Quando recebi a oferta inicial para uma produção teatral no Takarazuka, fiquei nervosa. Lembro-me de estar à flor da pele até que o pano caísse na noite de estreia, preocupada: “E se falhar?”. Haruna Yuri, a primeira atriz a interpretar Oscar, também compartilhou que sentiu nervosismo até o início da apresentação.

— A adaptação do Takarazuka em 1974 transformou A Rosa de Versalhes em um fenômeno cultural. Por essa altura, o mangá já havia sido concluído, e relatos indicam que você estava em uma viagem ao exterior com outros mangakás. Ao retornar ao Japão, soube do sucesso do mangá ao ser cercada por repórteres no aeroporto. Isso é verdade?

Ikeda:

Oh, isso traz ótimas lembranças! (risos) Quando cheguei ao Aeroporto de Narita, um estrangeiro ao meu lado perguntou: “Você é atriz?”. Quando perguntei o motivo, ele disse: “Há tantas câmeras de TV esperando por você! Todo mundo está aqui por você!”. Essa foi a primeira vez que vivenciei algo assim. Foi também quando percebi que A Rosa de Versalhes era um enorme sucesso graças à produção do Takarazuka.


Scene cuts from the movie The Rose of Versailles


Scene cuts from the movie The Rose of Versailles


Combatendo a Desigualdade de Gênero e Sendo Rotulada como Excêntrica

Desafiando as Disparidades Salariais

A Rosa de Versalhes retrata a vida de Oscar como uma mulher vivendo como homem durante uma era de stark desigualdade de gênero. Como era o cenário social quando a série foi serializada pela primeira vez? Como você vê o progresso em direção à igualdade de gênero ao longo dos últimos 50 anos?

Ikeda: Embora a desigualdade de gênero tenha diminuído em comparação ao passado, o Japão ainda tem um longo caminho a percorrer pelos padrões globais. A mentalidade tradicional de que "homens trabalham e mulheres ficam em casa" continua forte. No entanto, vejo essa crença diminuindo gradualmente entre as gerações mais jovens.

Um conhecido meu tirou licença-paternidade integral para cuidar de seu recém-nascido, o que mostra como os tempos mudaram. Contudo, quando eu estava trabalhando em A Rosa de Versalhes, as mulheres não conseguiam progredir em suas carreiras, e eu recebia metade do salário dos meus colegas homens.

Certa vez, protestei perguntando: "Por que sou paga pela metade quando estamos na mesma revista e temos popularidade semelhante?". A resposta me chocou: "Os homens precisam sustentar suas esposas, e as mulheres são sustentadas por seus maridos. É por isso que os homens ganham mais". As pessoas ficavam pasmas por eu ter ousado questionar o sistema.

Recebi muitas cartas de mulheres trabalhadoras na época, dizendo: "Eu gostaria de ter alguém como o André na minha vida". Mas eu não criei A Rosa de Versalhes para defender os direitos das mulheres. Minha filosofia sempre foi escrever o que quero, e cabe aos leitores extraírem seus próprios significados.


Scene cuts from the movie The Rose of Versailles


Scene cuts from the movie The Rose of Versailles


O Apelo Atemporal de A Rosa de Versalhes

Diferenças Geracionais na Interpretação

— Com este lançamento nos cinemas, o que você acha que confere a A Rosa de Versalhes seu apelo atemporal através das gerações?

Ikeda: O anime para TV de décadas atrás era popular até mesmo na Europa. Ouvi dizer que cartazes do programa ficavam expostos em pilares na estação central de Milão.

Cada geração se conecta com a história de maneira diferente. Por exemplo, as crianças podem se sentir atraídas pelos belos vestidos. Por outro lado, os adultos podem simpatizar com os envolvimentos românticos, como o amor proibido de Fersen e Antonieta. Alguns leitores podem pensar: "Consigo me identificar totalmente com os sentimentos de Antonieta agora que sou mais velho(a)". Essa diversidade de interpretação mantém a obra envolvente.

Quando olho para trás, fico impressionada com o amor de Fersen por Antonieta — ele realmente falava sério quando disse: "Vou amar você para sempre". Mesmo como criadora, acho isso incrivelmente comovente.

Scene cuts from the movie The Rose of Versailles


Scene cuts from the movie The Rose of Versailles


— O que você gostaria que o novo público, que está conhecendo A Rosa de Versalhes pela primeira vez através deste filme, levasse consigo da obra?

Ikeda: Este novo filme foi escrito e dirigido por mulheres, o que pode ser o motivo de ele se manter fiel ao mangá original. Ouvi dizer que levou nove anos para ser concluído.

Quando serializei o mangá, disseram-me que ele precisava terminar dez semanas após a morte de Oscar. Ao contrário de hoje, em que obras populares podem continuar indefinidamente, havia prazos rígidos. Eu queria escrever mais, mas fico feliz que a história agora possa ser reapresentada ao público moderno por meio deste filme.

Eu tinha 24 anos quando criei A Rosa de Versalhes, e agora estou em uma idade em que penso profundamente sobre a minha própria morte e a aceitação dela. Ao assistir a este filme, percebi que minhas convicções e a maneira como vivo minha vida não mudaram. Espero que os fãs se sintam inspirados a ter confiança em suas próprias escolhas e crenças através desta história.


Scene cuts from the movie The Rose of Versailles


Scene cuts from the movie The Rose of Versailles


Sobre o Filme Obra Original: Riyoko Ikeda Direção: Ai Yoshimura Roteiro: Tomoko Konparu Design de Personagens: Mariko Oka Produtor Musical: Hiroyuki Sawano Música: Hiroyuki Sawano, KOHTA YAMAMOTO Estúdio de Animação: MAPPA Produção: Comitê de Produção do Filme A Rosa de Versalhes Distribuição: TOHO NEXT, Avex Pictures Apoio: Embaixada da França no Japão / Instituto Francês

Elenco de Voz: Oscar François de Jarjayes: Miyuki Sawashiro Maria Antonieta: Aya Hirano André Grandier: Toshiyuki Toyonaga Hans Axel von Fersen: Kazuki Kato

Narração: Hitomi Kuroki Canção-Tema: Ayaka - Versailles -ベルサイユ-


Fim.


Enfim, uma  entrevista concedida por Riyoko Ikeda aos 77 anos — a propósito, já antiga do lançamento da nova adaptação cinematográfica pelo estúdio MAPPA —  Mas, que oferece um vislumbre fascinante da mente de uma das maiores autoras da história dos mangás. Mais do que revisitar o passado de um clássico absoluto, Ikeda desconstrói rótulos, expõe feridas sociais históricas e reafirma a consistência inabalável de sua visão artística e de vida.

Abaixo, destrinchamos os pontos mais instigantes dessa conversa.

1. O choque salarial e o feminismo sem "rótulos" programáticos

Um dos trechos mais reveladores (e revoltantes para os padrões atuais) é o relato de Ikeda sobre os bastidores da publicação de A Rosa de Versalhes na década de 1970. Em plena fase áurea de sucesso, a autora descobriu que recebia metade do salário de seus colegas homens, recebendo como justificativa a falácia machista de que "homens sustentam famílias e mulheres são sustentadas".

O que torna a postura de Ikeda brilhante é a sua recusa em se enquadrar em caixas ideológicas modernas. Ela afirma categoricamente:

"Eu não criei A Rosa de Versalhes para defender os direitos das mulheres. Minha filosofia sempre foi escrever o que quero, e cabe aos leitores extraírem seus próprios significados."

Essa declaração é o retrato exato de sua obra. Ikeda não escrevia panfletos políticos; ela escrevia sobre liberdade, dignidade humana e complexidade psicológica através de personagens revolucionários como Oscar François de Jarjayes. O impacto feminista de Berubara é visceral justamente porque é orgânico, nascido da urgência artística de uma mulher jovem que recusava a submissão imposta por um Japão altamente patriarcal.

2. A genialidade precoce e o peso dos prazos

Outro ponto tocante é a confissão de que Ikeda tinha apenas 24 anos quando deu início a essa obra-prima. Para a perspectiva histórica dos mangás, conceber uma narrativa de fôlego histórico, densidade política e profundidade dramática nessa idade é um feito colossal.

Além disso, ela expõe as pressões industriais da época: o mangá teve que ser encerrado rigidamente dez semanas após a morte de Oscar. Saber que Ikeda desejava explorar ainda mais aquele universo — mas que, paradoxalmente, essa restrição ajudou a lapidar o ritmo trágico e definitivo da obra — nos faz olhar para o final de Berubara com um respeito ainda maior. Era a literatura de

manga operando no limite de sua força dramática.

3. A maturidade e a coerência vital: "Minhas crenças não mudaram"

Olhando para trás em direção aos seus 24 anos, Ikeda faz uma ponte poética e filosófica entre a juventude e a velhice:

"Estou em uma idade em que penso profundamente sobre a minha própria morte e a aceitação dela. Ao assistir a este filme, percebi que minhas convicções e a maneira como vivo minha vida não mudaram."

Essa frase resume a própria essência de Oscar François de Jarjayes. Assim como sua protagonista imortal, que viveu e morreu sob a égide de suas próprias convicções morais e de classe, Riyoko Ikeda construiu uma vida de coerência intelectual. Ela se tornou cantora de ópera, estudou literatura alemã e filosofia na maturidade, e nunca se curvou às convenções sociais que tentaram diminuí-la no início da carreira.



Conclusão: Por que Ikeda e Oscar continuam indispensáveis?

Esta entrevista prova que o fascínio por A Rosa de Versalhes não reside apenas nos belos traços de época ou no melodrama da Corte de Versalhes. A obra sobrevive porque carrega a eletricidade de sua criadora: uma jovem mulher que ousou desafiar a disparidade salarial, que debochou das estruturas arcaicas de seu tempo através da arte e que, mais de cinco décadas depois, continua olhando para o espelho da própria trajetória com orgulho e autenticidade.

Para os novos espectadores que descobrem o filme agora — e para os fãs veteranos que guardam cada volume na estante —, a mensagem de Ikeda é um manifesto atemporal: tenha coragem de confiar nas suas próprias escolhas.



Espero que tenham gostado! Daqui a pouco tem mais.

Desejo a todos uma linda semana, amigos da Lady Oscar!


ady Oscar diz... Obrigada por sua visita! Volte sempre que quiser.