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domingo, 9 de agosto de 2026

Feliz Dia dos Pais: O General Jarjayes é o Pior Pai do Mundo ou o Criador de uma Heroína?

Olá, queridos amigos da Lady Oscar, sejam Bem Vindos!
 



Hoje é Dia dos Pais! Conforme aponta o portal Calendarr,, a data é comemorada anualmente no segundo domingo de agosto no Brasil, sendo o momento perfeito para agradecer aos papais pelo suporte, pelo carinho e pela companhia de toda a vida. É o dia clássico de encher os pais de abraços, mensagens afetuosas e presentes que demonstram todo o nosso amor.

Para celebrar a ocasião aqui no blog, decidi trazer uma figura paterna muito peculiar da ficção: o aristocrata General Reynier de Jarjayes. Chefe das Forças Armadas na França, membro da corte, marido de Emilie de Jarjayes e pai de nossas queridas irmãs, incluindo a protagonista do clássico A Rosa de Versalhes (ベルサイユのばら), a lendária Oscar François de Jarjayes. Ah, vale lembrar também que ele carrega o título de avô da pequena Lou Lou, aquela sobrinha espevitada que aparece apenas nos episódios Gaiden e em Berubara Kids!

Fanart de minha Autoria.


Para abrir a postagem, compartilho com vocês uma fanart digital fresquinha, desenhada e colorida inteiramente por mim, retratando Oscar e seu pai como forma de homenagem a todos os pais que nos acompanham por aqui:

Quem conhece A Rosa de Versalhes sabe que o General Jarjayes está muito longe de ser o protótipo do pai afetuoso e tradicional. Muito pelo contrário! Movido pelo desejo inabalável de ter um herdeiro para dar continuidade à gloriosa tradição militar da família na Guarda Real, ele não escondeu a frustração quando sua caçula veio ao mundo na véspera de Natal de 1755.

Contudo, por mais severo ou distante que tenha sido — a ponto de criá-la sob rigidez marcial e tratá-la como seu "filho" — foi justamente essa educação incomum que nos presenteou com uma das maiores heroínas da ficção. No embalo do Dia dos Pais, vale a pena explorar a complexa figura paterna de Jarjayes, transitando pela fascinante história real que o inspirou, pelas diferenças entre as mídias e pelas curiosidades que cercam esse personagem tão marcante.

Fanart de minha autoria.


O Homem por Trás da Patente: A Inspiração Histórica

O personagem de Riyoko Ikeda não surgiu apenas da imaginação da mangaká; ele foi baseado no general  general François-Augustin Reynier de Jarjayes. Nascido em Hautes-Alpes em 2 de outubro de 1745 e falecido em Fontenay-aux-Roses em 11 de setembro de 1822, o militar real de carne e osso dedicou sua vida à Guarda Real Francesa e à monarquia.

Sua trajetória inclui uma sólida carreira topográfica ao lado do Tenente-General Pierre Joseph de Bourcet, de quem se tornou ajudante de campo em 1769. Em 1770, casou-se com a sobrinha de seu mentor, Marie-Anne Louise Bourcet de la Saigne (que tinha apenas 15 anos na época). Promovido a coronel no estado-maior do Exército em 1779, o verdadeiro Jarjayes compartilhava com sua contraparte desenhada a lealdade fervorosa à Coroa e um destino profundamente entrelaçado aos turbulentos dias da nobreza francesa..

 
 

Do Berço à Espada: As Nuances da Criação de Oscar

No mangá original, a chegada de Oscar ao mundo é marcada por um choro tão forte que inicialmente enganou o pai, fazendo-o acreditar que finalmente havia gerado o varão tão sonhado após seis filhas. Ao descobrir a verdade, tomou uma decisão drástica: treiná-la na esgrima, na equitação e nas táticas de combate para que assumisse o posto de capitã da Guarda Real.

  • No Mangá vs. No Anime: Enquanto no clássico animado de 1979 vemos logo de cara a pequena Oscar treinando com André — para desespero da avó do rapaz, que achava a ideia um absurdo —, no mangá de Ikeda os primeiros treinos de esgrima acontecem diretamente sob a tutela do próprio pai.

  • A Liberdade e o Conflito do Casamento: Graças à criação masculina, Oscar pôde circular livremente pela corte e proteger a Rainha Maria Antonieta. No entanto, perto do final da trama, o general tentou forçar um retorno aos papéis tradicionais de gênero ao arranjar um noivado com o nobre Girodelle.

  • O Baile Hilário: Para sabotar a união indesejada e preservar sua liberdade (e seu coração, já entregue a André), Oscar recusou o vestido de noiva, desfilou com um luxuoso traje masculino na festa organizada pelo pai e ainda dançou com as moças da corte. Embora essa cena épica não tenha ganhado tanto espaço na animação clássica, ela permanece como um dos momentos mais icônicos do mangá. Ironicamente, no fim das contas, a própria Oscar reconhece que deve sua autonomia única àquela criação nada convencional..

    .

     
     

    No primeiro episódio do anime clássico, acompanhamos Oscar e André trocando estocadas de esgrima sob o olhar desesperado da avó do rapaz — e babá da nossa heroína —, que não apenas acha a prática perigosa demais para uma jovem, como reprova veementemente a obsessão do general em criar a neta como um garoto. No mangá de Riyoko Ikeda, contudo, a introdução ganha outro contorno: embora a esgrima continue presente logo cedo na vida de Oscar, quem segura a lâmina contra ela nas páginas originais não é André, mas o próprio General Jarjayes.

Outras Faces do General: Do Live-Action aos Livros

A relação entre pai e filha ganhou contornos ainda mais dramáticos em outras mídias:

  • O Filme Live-Action de 1979: Nesta produção dirigida por Jacques Demy, o General Jarjayes exibe uma frieza ainda maior — exigindo ser chamado de "senhor" em vez de pai. O ápice dessa tensão ocorre em um duelo de espadas dentro de casa, onde ele fere a mão de Oscar antes de ser interrompido por André. (Vale lembrar que, no mangá, o confronto com o pai acontece por causa da leitura dos filósofos iluministas, mas sem chegar às vias de fato com lâminas)..

     
     
  • O Retorno de Lady Oscar: Nos romances derivados (como a continuação publicada pela editora Fabbri), o general enfrenta um destino amargo, chegando a cumprir pena em uma prisão parisiense após tentar auxiliar na fuga de Maria Antonieta. É lá que, diante de um jovem presidiário, ele revisita o diário de Oscar e demonstra profundo arrependimento por ter criado a filha como um homem..

    Acervo pessoal.

  • Nos bastidores das curiosidades: Exposições dedicadas à franquia — como a memorável exibição do 45º aniversário da animação em Milão — trouxeram detalhes encantadores, como o famoso berço azul decorado com um florete de esgrima, imortalizado nos versos da inesquecível abertura italiana I Cavalieri Del Re:



    "Il buon padre voleva un maschietto, ma ahime` sei nata tu,
    nella culla ti ha messo un fioretto,
    Lady dal fiocco blu"


    O bom pai queria um menino, mas infelizmente você nasceu.
    No berço, colocou-te um florete.
    Lady do laço azul
    .

     








O General Jarjayes pode não vencer prêmios de "Pai do Ano" pela suavidade ou pelo afeto tradicional, mas sem a sua obstinação e sem o florete colocado naquele berço azul, a história dos animes e dos mangás não teria nos dado a inesquecível Capitã da Guarda Real.


O pai De Oscar a trata como um filho e não uma filha:

 
Fanart  de minha autoria sem colorir Lady Oscar e seu pai 2024.


Fanart Digital de minha autoria Oscar e seu Pai General Jarjayes 2024.


O tratamento que o General Jarjayes reserva a Oscar é radicalmente focado em sua identidade masculina fingida: ele jamais se refere a ela como "minha filha", tratando-a sempre e sem vacilos como "meu filho Oscar". Um detalhe fascinante que emerge nas histórias Gaiden é que esse velho militar durão também carrega o título de avô da pequena Loulou, a sobrinha endiabrada e cheia de personalidade de Lady Oscar que vive se metendo em confusões.





 Para fechar, deixo vocês com imagens e um vídeo desta relação complexa: ele pode não ser o melhor pai do mundo, mas sem essa criação severa e a obstinação de Jarjayes, jamais teríamos a inesquecível heroína que tanto amamos.











Um feliz dia dos pais, a todos o papais que acompanham esse blog. Finalizo com outra de minhas fanarts digitais dfeita em 2022.


Fanart digital de minha autoria, feito, no dia dos pais de 2022.
 
 

 
 
Espero que tenham gostado! Daqui a pouco tem mais.

 

Um ótimo domingo e uma linda semana para todos vocês, amigos da Lady Oscar.


ady Oscar diz... Obrigada por sua visita! Volte sempre que quiser.

 


 










sábado, 8 de agosto de 2026

Os bastidores dos 50 anos de "A Rosa de Versalhes": Riyoko Ikeda fala sobre os obstáculos, a discriminação salarial e a inspiração que a manteve firme. ( Artigo Traduzido).

Olá, queridos amigos da Lady Oscar, Sejam Bem Vindos!





 Conforme eu havia prometido, estou colecionando entrevistas antigas e atuais de Riyoko Ikeda, e agora encontrei uma entrevista de 2022, onde a autora fala sobre os 50 anos de A Rosa de Versalhes(ベルサイユのばら). No artigo, Ikeda reflete sobre o processo criativo da obra, os desafios de ser uma mulher em um mercado editorial dominado por homens na década de 1970, o preconceito contra os mangás na época e como a história de Oscar se tornou um símbolo de força para as mulheres, transcendendo gerações. Para quem quiser ler o original clique aqui.

Este ano marca o 50º aniversário do início da publicação em série de "A Rosa de Versalhes" (Riyoko Ikeda). Foto: Koji Miyazaki


Os bastidores dos 50 anos de "A Rosa de Versalhes": Riyoko Ikeda fala sobre os obstáculos, a discriminação salarial e a inspiração que a manteve firme.

A decisão tomada ao ler o romance "Maria Antonieta" no segundo ano do ensino médio.

Por Riyoko Ikeda (Mangaká, cantora de ópera e poetisa)

Este ano marca o cinquentenário do início da serialização de A Rosa de Versalhes. Como esse clássico, que continua a fascinar leitores através das gerações, foi criado? A autora, Riyoko Ikeda, relembra o passado. (Estruturado por Keiko Ueda, Fotos por Koji Miyazaki)

"Este é o lugar onde André morreu"

Já faz muitas décadas, mas quando visitei a França pela primeira vez, ouvi um guia de turismo dizer: "Uma jovem japonesa escreveu uma história ambientada em Versalhes". Anos mais tarde, durante outra viagem, ouvi um guia francês dizer: "Este é o lugar onde André morreu" (risos). Nessas horas, nunca me identifico. Por isso, nenhum desses guias soube que a pessoa que criou aquela obra estava diante deles.

Em 1972, aos 24 anos, comecei a serialização de A Rosa de Versalhes (daqui em diante, Berubara). Já se passaram 50 anos. Nesse meio século, a idade dos leitores se diversificou. Dos primeiros leitores, recebi cartas dizendo: "Vou levar a coleção como parte do meu enxoval". Cerca de 15 anos depois, recebi cartas de filhas dizendo: "Minha mãe me recomendou". Hoje, estamos na terceira geração de leitores. Recebo cartas de estudantes do ensino fundamental e médio dizendo: "Minha avó lia".

A ideia para Berubara surgiu quando eu ainda estava no ensino médio. Nas férias de verão do segundo ano, li o romance Maria Antonieta, de Stefan Zweig, e desejei ardentemente transformar a vida dela em uma obra, seja em mangá ou romance. Uma garota tola e adorável que cresce como ser humano em meio à infelicidade. Esse processo me impressionou profundamente. O título também foi decidido desde o início. A rosa é a imagem de Antonieta. Como ela mesma parecia gostar de rosas, não tive dúvidas. Mantive esse desejo vivo durante meus tempos de assistente e após minha estreia em revistas (1967).

Oscar e Maria Antonieta (C) Produção de Riyoko Ikeda


O descuido cobrou seu preço e minha saúde piorou de repente anos depois

Quando recebi a primeira oportunidade de uma serialização longa, era uma época em que viagens ao exterior ainda eram um privilégio para poucos. A história se passava na França do final do século XVIII, mas não havia como ir até lá para pesquisar, e não existia a internet como hoje. Minha única fonte eram os livros. Comprei documentos relacionados à França em sebos de Kanda, em Tóquio, e pesquisei na biblioteca da editora Shogakukan. Quando eu realmente não sabia algo, perguntava a especialistas. Como desenhei baseada na imaginação, cometi erros impossíveis. Se você olhar a obra, verá a Basílica de Sacré-Cœur em uma paisagem urbana, sendo que ela não existia na época. Bem, pelo menos não desenhei a Torre Eiffel (risos).

Durante os quase dois anos de serialização, estudei desenho do zero. Como era autodidata, meus traços eram muito ruins. Eu me sentia frustrada por não conseguir desenhar como queria. Graças às aulas de desenho que recebi de estudantes de faculdades de artes, a segunda metade da série ficou muito mais fácil de desenhar.

Ainda assim, a serialização semanal tinha 23 páginas por capítulo. No começo desenhava sozinha, mas devido à carga de trabalho, precisei de assistentes. Antes do prazo final, virar a noite por dois ou três dias era normal. E, apesar disso, desenhava histórias paralelas de 63 páginas ao mesmo tempo. Acho que eu era muito jovem. No entanto, o descuido daquela época cobrou seu preço, e anos depois minha saúde piorou drasticamente; não se deve forçar tanto. A interação com colegas de profissão da época, como Moto Hagio e Toshie Kihara, foi um grande incentivo. Elas moravam em Hanno, Saitama, e eu em Kashiwa, Chiba. Como éramos muito ocupadas, mal conseguíamos nos encontrar, então passávamos horas ao telefone. Chegamos a conversar por 8 horas seguidas (risos). Como o que cada uma queria desenhar era completamente diferente, isso serviu como um ótimo estímulo.

Cena final de Oscar (C) Produção de Riyoko Ikeda


"Mangás são livros ruins que prejudicam as crianças"

No entanto, o Japão daquela época era uma sociedade puramente masculina. As redações eram compostas apenas por homens. Berubara foi inicialmente rejeitado com termos severos: "Histórias históricas não agradam mulheres e crianças. Elas não conseguiriam entender". O preconceito contra mangakás mulheres era forte, e o valor pago pelo manuscrito era metade do pago aos homens, mesmo quando tinham a mesma popularidade no mesmo meio. Quando perguntei o motivo, disseram: "Mulheres vão se casar no futuro e serão sustentadas por homens, certo? Nós temos que sustentar vocês. É natural que o cachê dos homens seja o dobro". Que época incrível, não?

Mais tarde, mudei de editora e confirmei o valor do cachê, mas parece que isso também não foi bem visto. Dizem que os outros mangakás eram descuidados com dinheiro e nunca perguntavam sobre isso (risos). Soube depois que os editores comentavam que eu era uma "mulher gananciosa".

Algumas cartas de fãs continham palavras cruéis. Por exemplo: "É um incômodo que uma mulher como você exista neste mundo". Será que pensavam que eu, como autora, vivia uma vida glamorosa como a aristocracia francesa? Na verdade, até Berubara fazer sucesso, eu sobrevivia fazendo bicos. Acho que isso também refletia o baixo status dos mangakás na época. Os responsáveis consideravam o mangá um "livro ruim que prejudica as crianças". O mestre Osamu Tezuka também disse que suas obras foram queimadas nos pátios das escolas.

Uma vez, perguntei a um crítico de mangá: "Por que os livros são bons e os mangás não?". Responderam-me: "Os romances expressam cenas apenas com palavras, deixando margem para a imaginação. Os mangás decidem tudo com desenhos, por isso não prestam". Quando retruquei, "Então, o que dizer dos filmes?", a pessoa ficou em silêncio.

Em termos de avaliação, o exterior reconhece o valor das obras de forma mais direta. Especialmente na Europa, não existe essa divisão de "mangá para mulheres" e "mangá para homens". Sinto uma diferença cultural com o Japão.

Riyoko Ikeda afirma que as pessoas no exterior apreciam o valor de seu trabalho de forma mais direta (Foto: Koji Miyazaki)


As palavras de Muhammad Ali foram meu suporte emocional

Em meio aos ventos contrários, meu suporte emocional foi a existência de Muhammad Ali (Cassius Clay), ex-campeão mundial de boxe peso-pesado. Ele teve seu título e licença profissional retirados pelo governo por se recusar a ser convocado para a Guerra do Vietnã. "Por que eu deveria ir a 16.000 quilômetros de distância para matar pessoas orientais com quem não tenho nenhuma relação?", disse ele. Fiquei fortemente atraída por sua postura de manter suas convicções mesmo sob pressão... Eu também queria ter um eixo inabalável.

Não esqueço a mensagem que meu professor me deu ao me formar no ensino médio: "As palavras dos fracos estão sempre certas. Busque seguir essa verdade social". Sem essas palavras, a Oscar, uma aristocrata, talvez nunca tivesse se colocado ao lado do povo.

E, acima de tudo, o que mais importava eram as vozes dos leitores. Originalmente, era uma obra voltada para crianças. No entanto, aos poucos, o estilo de vida de Oscar, uma mulher que se vestia de homem e lutava em uma sociedade masculina, começou a ressoar com mulheres adultas, especialmente as trabalhadoras. Foi uma repercussão inesperada. Também ouvi histórias de professores que antes diziam "Não leiam mangás, não tragam para a escola", mas que passaram a recomendar Berubara aos alunos. Toda vez que ouço isso, sinto do fundo do coração que valeu a pena continuar desenhando.

A partir de 2014, publiquei, após 40 anos, os "Episódios" focados em personagens como Alain, Fersen e Rosalie. Agora, não tenho mais temas que queira transformar em mangá. Se eu tivesse que dizer algo, minha meta é publicar um segundo livro de poesias antes de partir.

Eu também partirei deste mundo algum dia, mas as obras permanecerão. Se Berubara continuar sendo lido daqui para frente, não haverá felicidade maior.

(C) Produção Ikeda Riyoko


Fonte: "Fujin Koron", edição de outubro de 2022


Fim.


Enfim, essa foi a tradução, então vamos aos comentários e análises.

A Inevitável Relevância de um Ícone: Reflexões sobre os 50 Anos de A Rosa de Versalhes

A entrevista concedida por Riyoko Ikeda em 2022, celebrando o cinquentenário de A Rosa de Versalhes (Berubara), oferece muito mais do que um vislumbre nostálgico dos bastidores de um clássico: ela se consolida como um documento sociológico sobre a tenacidade criativa, o machismo estrutural da indústria cultural japonesa nas décadas de 1970 e o nascimento involuntário de um divisor de águas político e estético nos quadrinhos mundiais.

1. A Autora e o Arquétipo: A Gênese Histórica de uma Obra-Prima

O que impressiona na narrativa de Ikeda é o rigor precoce de sua visão artística. Conceber uma saga monumental baseada na biografia de Stefan Zweig sobre Maria Antonieta aos dezessete anos — e executá-la com maestria aos vinte e quatro — revela uma maturidade narrativa rara.

O acerto genial de Ikeda não esteve apenas em revisitar a Revolução Francesa, mas em hibridizar o romance histórico europeu com a gramática dramática do shoujo mangá. Ao transformar a trajetória de Maria Antonieta — de uma jovem "tola e adorável" para uma figura trágica marcada pela maturidade forçada pelo sofrimento — e, principalmente, ao criar a tenente Oscar François de Jarjayes, Ikeda redefiniu os limites do que o público infantojuvenil (e posteriormente adulto) podia consumir.

2. O Preço da Inovação em um Sistema Hostil

O trecho mais contundente da entrevista reside na franqueza com que Ikeda expõe a misoginia institucionalizada da imprensa e do mercado editorial da época. É revelador — e revoltante — constatar que o sucesso acassalador de Berubara foi obtido sob fogo cruzado:

  • A Desvalorização Financeira: A justificativa cínica de que mulheres receberiam metade do cachê por serem "sustentadas por futuros maridos" escancara o apartheid econômico que as mangakás pioneiras enfrentavam. O estigma posterior de ser tachada de "gananciosa" por ousar fiscalizar seus próprios ganhos demonstra como o sistema punia mulheres que adotavam uma postura profissional rigorosa.

  • O Estigma Cultural: Tratar o mangá como "livro ruim que prejudica as crianças" não era exclusividade de pais conservadores, mas parte de um establishment intelectual que marginalizava a cultura pop. A recusa do crítico em debater a legitimidade do mangá frente ao cinema após ser encurralado pela lógica sintetiza a hipocrisia acadêmica da época.

3. Cruz Eixos e Referências: O Olhar Político e Estético

A revelação de que Muhammad Ali serviu como bússola moral para Ikeda durante a criação da obra fornece uma chave interpretativa fascinante para a jornada de Oscar. A recusa de Ali em lutar na Guerra do Vietnã e sua resistência intransigente frente à pressão do Estado ecoam diretamente na decisão de Oscar de romper com sua casta aristocrática para abraçar a causa do Terceiro Estado e o levante popular.

Da mesma forma, a citação do conselho de seu professor — "As palavras dos fracos estão sempre certas" — fundamenta a espinha dorsal humanista da obra. Berubara nunca foi apenas sobre vestidos pomposos e intrigas da corte; foi uma reflexão profunda sobre justiça social, privilégio e empatia histórica, ancorada pela sensibilidade de uma autora que navegava contra a maré de seu tempo.

4. O Legado que Ultrapassa as Páginas

O relato de Ikeda sobre os guias turísticos na França desconhecerem que a criadora daquela narrativa estava bem ali diante deles simboliza a imortalidade da grande arte. Quando uma obra passa a pertencer ao imaginário coletivo a ponto de se fundir com a própria geografia física e histórica do lugar que retrata, o autor torna-se eterno.

Cinco décadas após seu início, A Rosa de Versalhes permanece como um monumento não apenas à genialidade de Riyoko Ikeda, mas à força da resiliência feminina em um mundo que tentou, ativamente, silenciar e diminuir a voz de suas criadoras.



sexta-feira, 7 de agosto de 2026

O Retorno Triunfal de Lady Oscar às Telas da TV Italiana

Olá, queridos amigos da Lady Oscar,Sejam Bem Vindos!


 


 Se você é fã de clássicos dos animes, certamente vai comemorar esta notícia: Lady Oscar  Rosa de Versalhes de 1979 voltou a ser transmitida na televisão italiana!

A exibição começou nesta quarta-feira, 5 de agosto, ocupando o espaço deixado por Cat's Eye — curiosamente, a última cena daquela série trouxe uma bela homenagem à nossa amada Rosa de Versalhes.



Programação e Horários na Itália

Para quem está na Itália ou acompanha a programação local, a transmissão tem surpreendido pela quantidade de episódios diários:

  • Horário Vespertino: A estreia aconteceu às 17h15, seguida por uma verdadeira maratona logo no dia seguinte, com três episódios exibidos em sequência das 16h25 às 17h20.

  • Reprises Matinais: Os capítulos também estão programados para a parte da manhã, por volta das 8h10 (é sempre prudente conferir a grade oficial para eventuais ajustes).

  • Madrugada: Para os notívagos ou fãs dedicados, há ainda uma opção de reprise na faixa das 4h da manhã.

  • Streaming: Todo o conteúdo também fica disponível na plataforma Mediaset Infinity.

Por que Reviver um Clássico Nunca Demais

Enquanto alguns telespectadores criticam exibições repetidas de títulos antigos sob o argumento de que isso poderia desgastar o valor da obra, a paixão fala mais alto para os verdadeiros entusiastas. Mesmo para quem já guarda coleções completas em DVD e Blu-ray, revisitar narrativas atemporais traz um frescor único.



A experiência de acompanhar as reviravoltas de Oscar François de Jarjayes na telinha tem um sabor especial — seja assistindo diretamente do celular durante a preparação de uma exposição temática, seja redescobrindo nuances da animação. Afinal, certas histórias carregam um brilho que o tempo não consegue apagar. Uma pena que esse majestoso anime nunca foi exibido na Tv Brasileira.

Nota dos bastidores: A maratona italiana também despertou memórias sobre outras dublagens clássicas, como assistir às aventuras de Oscar em francês. Mas isso já é assunto para um próximo post!


Espero que tenham gostado!


ady Oscar diz... Obrigada por sua visita! Volte sempre que quiser.

 


 


 

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

A Nobreza do Espírito: A Jornada de Oscar e André em Tempos de Revolução

Olá, queridos amigos da Lady Oscar, Sejam Bem Vindos!



Acabei esquecendo de comentar, mas, em Rosa de Versalhes(ベルサイユのばら), no dia 4 de agosto de 1789, os privilégios feudais foram abolidos na França — aqueles mesmos entraves que, no passado, criaram tantas barreiras para o casamento de Oscar e André, embora ela o desafiasse de qualquer maneira. Esse foi o primeiro grande passo rumo à Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, promulgada em 26 de agosto, à qual pretendo retornar.

Oscar era nobre de berço, mas uma nobreza ainda maior habitava seu espírito. Ela desfrutava dos privilégios de sua posição, mas sua alma ansiava por mudanças e repudiava qualquer forma de injustiça. Afinal, não podemos nos esquecer: ela sempre encontrou em André uma alma gêmea desde a infância. Para ela, ele nunca foi um mero servo, mas alguém infinitamente mais importante. Foi a mesma mulher que se indignou com a tragédia da família Sugane em Arras, que acolheu a plebeia Rosalie sob o próprio teto, que se compadeceu genuinamente das privações dos soldados da Guarda e que, por fim, escolheu marchar ao lado do povo.



Certamente, Oscar jamais teria compactuado com os excessos do Terror. No entanto, o ideal nobre e iluminista da Revolução dialogava perfeitamente com seus valores e com sua visão de mundo — uma visão que construiu e compartilhou lado a lado com André. Por isso, hoje, ela estaria feliz.


Enfim, Oscar tinha uma nobreza ainda maior habitava seu espírito. Ela desfrutava dos privilégios de sua posição, mas sua alma ansiava por mudanças e repudiava qualquer forma de injustiça. Afinal, não podemos nos esquecer: ela sempre encontrou em André uma alma gêmea desde a infância. Para ela, ele nunca foi um mero servo, mas alguém infinitamente mais importante. Foi a mesma mulher que se indignou com a tragédia da família Sugane em Arras, que acolheu a plebeia Rosalie sob o próprio teto, que se compadeceu genuinamente das privações dos soldados da Guarda e que, por fim, escolheu marchar ao lado do povo. Em suma, a jornada de Oscar personifica a própria transição da velha França para os ideais revolucionários. Ao abdicar de seus privilégios por amor à liberdade e à justiça, ela se consagra não apenas como uma heroína trágica, mas como o símbolo máximo de que a verdadeira nobreza reside na coragem de escolher o lado do povo. Finalizo com alguns momentos marcantes do mangá e anime clássico.


Espero que tenham gostado! Uma ótima semana amigos da Lady Oscar.

 


ady Oscar diz... Obrigada por sua visita! Volte sempre que quiser.