Olá, queridos amigos da Lady Oscar, sejam Bem Vindos!
No mês passado, A Rosa de Versalhes(ベルサイユのばら), de Riyoko Ikeda, apareceu nas questões do vestibular nacional japonês (Kyotsu Test) e rendeu inúmeros comentários nas redes sociais. E parece que os japoneses ainda não esqueceram o impacto dessa escolha. Recentemente, o Yahoo! Japão publicou um trecho de um artigo da revista Aera, trazendo uma entrevista exclusiva onde a autora reflete sobre esse reconhecimento tardio, mas muito bem-vindo.
Aos quase 80 anos, Ikeda não apenas comenta a surpresa de ver sua obra em um exame de tamanha importância, como também mergulha em memórias profundas sobre as dificuldades que enfrentou como mulher e artista em uma época muito mais rígida. É um relato emocionante que mistura gratidão, uma pitada de ironia contra antigos críticos e uma visão aguçada sobre o papel da ficção na compreensão da história.
Abaixo, apresento a tradução na íntegra desse diálogo fascinante, seguido de algumas reflexões sobre o porquê de Riyoko Ikeda continuar sendo uma voz tão necessária, mesmo cinco décadas depois.
A "Rosa de Versalhes" no Exame Nacional: Autora revela "dificuldades do passado" e "sentimentos pelos jovens" — "Oscar é o meu ideal" ( Artigo Traduzido).
—— Você sabia antecipadamente que "Rosa de Versalhes" apareceria nas questões do Exame Nacional (Kyotsu Test)?
Ikeda: Não, devido ao risco de vazamento de informações, não recebi nenhum aviso (do Centro de Exames). Quando vi a notícia, pensei que a questão deve ter sido muito mais fácil para as mulheres, mas fiquei extremamente feliz. Já se passaram mais de 50 anos desde que a serialização começou em 1972, e eu logo farei 80 anos. Aqueles que estão prestando o exame agora são a geração dos netos dos leitores daquela época, então é uma grande honra ter essa oportunidade de alcançar os jovens desta forma.
—— No texto da questão, foram apresentados alguns quadros da obra com a seguinte análise: "Pode-se considerar que as mulheres nobres da época ocupavam uma posição subordinada em relação aos patriarcas — pais ou maridos". Com que sentimento você desenhou essas mulheres que viviam sob as limitações de uma sociedade dominada por homens?
Ikeda: Antes de casar, estavam sob o domínio do pai; depois do casamento, sob o domínio do marido. Eu achava que era uma vida terrível, mas, como se tratava de um fato histórico, desenhei de forma objetiva, sem projetar empatia excessiva. Contudo, o patriarcado não se limitou à era de "Rosa de Versalhes"; ele persistiu por muito tempo no Japão também. Como saí de casa jovem e vivi da maneira que quis mesmo após me casar aos 22 anos, acho que raramente me senti uma "vítima" dos homens.
Por outro lado, foi doloroso quando, por não conseguir engravidar logo, outras mulheres me diziam: "Você é realmente uma mulher?". Quando eu mencionava criação de filhos ou problemas educacionais em palestras, invariavelmente ouvia de mulheres na plateia: "Você, que não tem filhos, não tem o direito de falar sobre isso". Era uma época em que o pensamento comum era de que uma mulher que não desse à luz não era considerada uma mulher.
Oscar expressa todos os meus sentimentos
—— As dificuldades que você sentiu como mulher estão projetadas em "Rosa de Versalhes"?
Ikeda: Meus sentimentos sobre o quão importante é ser livre são todos expressos pela personagem Oscar. As palavras dela e seu modo de vida são o meu ideal. Oscar nasceu como a filha caçula de uma família de generais franceses e, como todos os seus irmãos eram meninas, foi criada como homem para ser a sucessora do pai. No fim, ela acaba agradecendo ao pai por isso, pois pôde conhecer um mundo vasto que suas irmãs jamais imaginariam. Oscar foi alguém que se rebelou contra o seu tempo do início ao fim.
Eu pretendia desenhar "Rosa de Versalhes" como um mangá para crianças, mas recebi muitas cartas de fãs de mulheres adultas. Naquela época, as mulheres que trabalhavam eram frequentemente forçadas a apenas servir chá e fazer cópias, sendo pressionadas a se casar e se demitir ao atingirem certa idade. Acredito que as mulheres que desejavam trabalhar com afinco passavam por momentos muito difíceis e dolorosos. É por isso que tantas mulheres admiravam a figura de Oscar, vivendo de forma livre e poderosa. André, o fiel escudeiro e a pessoa que melhor a compreendia, também era muito popular; eu via com frequência comentários como: "Quem me dera ter alguém como o André na minha vida".
■ Críticas de que "isso é diferente dos fatos históricos"...
—— O texto da questão do Exame Nacional também incluía a reflexão: "A força das obras de ficção talvez resida na capacidade de retratar sentimentos e conflitos de pessoas do passado que não foram registrados oficialmente". Como você, que trabalhou em tantas obras históricas, recebe essa análise?
Ikeda: Concordo plenamente. No entanto, por ser ficção, os sentimentos e pensamentos do autor estão contidos ali, então nem sempre a obra é fiel aos fatos. Em relação a Berubara, cheguei a receber críticas de pessoas instruídas dizendo que "isso ou aquilo difere da realidade histórica". Como a própria Oscar é uma personagem fictícia, isso é óbvio, não? Eu respondia: "Não estou escrevendo um livro de história". Espero que os leitores possam desfrutar da ficção como ficção, mas que também estudem os fatos históricos seriamente.
É verdade que, após Berubara, recebi muitos convites para obras históricas, mas tenho orgulho de ter desenhado muitos trabalhos que abordam questões sociais. Tratei de temas viscerais como a bomba atômica, minorias sexuais, bullying escolar e os dilemas de mulheres em cargos de liderança. Não sei se o mangá pode resolver problemas sociais, mas ele certamente pode expor que esses problemas existem. Contudo, os temas que desenhei estavam tão à frente do seu tempo que, na época, não ganharam destaque. Sinto um pouco de solidão ao pensar que, depois, eles acabaram esquecidos à sombra do sucesso de Berubara.
■ Jovens que acham "Berubara" difícil demais para ler
—— Apesar disso, Berubara consolidou seu status de clássico imortal, inclusive com o lançamento de um novo filme em anime no ano passado. Qual você acredita ser o motivo de ser amado por mais de meio século?
Ikeda: Sinceramente, nunca parei para pensar nisso, então não sei. Na época da serialização, cheguei a receber uma carta que dizia: "A sua existência como mulher neste mundo é um incômodo. Quero ver sua decadência". Já se passaram 50 anos desde então, então espero que essa pessoa continue se esforçando para viver e testemunhar meu sucesso por muito tempo (risos).
Por outro lado, sinto uma ponta de preocupação de que obras históricas como Berubara se tornem cada vez mais difíceis de serem aceitas. Recentemente, fiquei surpresa com a carta de uma leitora colegial dizendo: "Recomendei Berubara para uma amiga, mas ela disse que não conseguiu ler porque era difícil demais". Primeiro, os nomes dos personagens são complexos, e entender o contexto histórico também deu trabalho, segundo ela. Talvez vivamos em uma era em que obras mais densas são evitadas em favor de entretenimentos mais simples, como romances cotidianos.
É justamente por isso que achei maravilhoso terem escolhido a obra para uma questão do Exame Nacional. Jovens, por favor, tentem ler Berubara pelo menos uma vez. Quem sabe isso não acaba sendo útil para vocês em algum momento da vida?
(Redação: Departamento Editorial da AERA • Yurie Otani)
fim.
Após essa tradução reveladora, é impossível não mergulhar nas entrelinhas do que Riyoko Ikeda nos diz. Mais do que uma retrospectiva de carreira, a entrevista é um retrato da luta de uma artista que usou a história para moldar o futuro.
Aqui estão três reflexões fundamentais sobre esse diálogo:
1. Oscar François de Jarjayes: Um Manifesto de Liberdade
O que mais chama a atenção é como Ikeda utilizou o cenário da Revolução Francesa para processar suas próprias angústias e as limitações impostas às mulheres no Japão da era Shōwa. Quando ela afirma que "Oscar é o seu ideal", ela nos revela que a personagem nunca foi apenas uma heroína de papel, mas um manifesto vivo de liberdade.
Na obra, Oscar agradece ao pai por ter sido criada como homem — e isso não deve ser lido como uma rejeição à sua feminilidade, mas como um reconhecimento de que apenas naquela posição ela pôde conquistar o "vasto mundo" sumariamente negado às suas irmãs. É uma crítica sutil, porém devastadora, à ideia de que o conhecimento, a autonomia e a aventura deveriam ter gênero.
2. A Solidão de Estar à Frente do Tempo
Existe uma melancolia muito honesta no trecho em que Ikeda comenta como suas obras de teor social — que abordam temas sensíveis como minorias sexuais, bullying e os dilemas da ascensão profissional feminina — foram "ofuscadas" pelo brilho monumental de Berubara.
Isso nos recorda que o artista vanguardista muitas vezes paga um preço alto: o isolamento. Ikeda já debatia identidade de gênero e autonomia décadas antes de esses temas se tornarem pautas globais. O fato de ela se sentir "um pouco solitária" por esse relativo esquecimento demonstra que, para ela, a função social e provocadora da arte sempre foi tão vital quanto a sua perfeição estética.
3. A Elegância Ácida como Resposta ao Preconceito
A resposta de Ikeda ao antigo crítico que desejava ver sua "decadência" é de uma maestria admirável. Ao desejar que ele "continue vivo para testemunhar seu sucesso", ela prova que a melhor vingança contra o preconceito é a longevidade aliada à relevância. Chegar aos 80 anos vendo sua obra ser tema de um exame nacional (o exigente Kyotsu Test) é o triunfo máximo sobre qualquer um que tenha tentado diminuir sua capacidade intelectual.
O Contraste de uma Gigante
É fascinante notar essa faceta resiliente e até irônica da autora. Ela se mostra humanamente dividida: ao mesmo tempo em que celebra o legado eterno de Oscar e André, carrega o peso agridoce de ver seus trabalhos mais realistas e "pé no chão" ainda à sombra de seu maior clássico. No fim, a trajetória de Ikeda nos ensina que, mesmo para os gigantes, a arte é uma jornada feita de constantes contrastes entre o que o mundo quer ver e o que o artista precisa dizer.
Espero que tenham gostado!













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