Olá, queridos amigos da Lady Oscar, Sejam Bem Vindos!
Recentemente, Riyoko Ikeda, autora da obra A Rosa de Versalhes, participou de uma edição especial do aclamado programa japonês WEEKLY OCHIAI. Conduzido pelo cientista de mídia e pensador Yoichi Ochiai, o debate foi transmitido em 20 de maio de 2026 pela plataforma NewsPicks.
Durante 1h22 de conversa, Ikeda-sensei ofereceu uma retrospectiva detalhada sobre sua trajetória e os significados por trás de sua criação mais famosa. O WEEKLY OCHIAI é conhecido por seu viés analítico e cultural, e esta edição não foi diferente, trazendo reflexões valiosas sobre o impacto de Berubara na sociedade e a construção da personagem Oscar.
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| créditos imagem disponibilizada pela página do Facebook: Lady Oscar Italian Fan Club. |
Para quem não sabe, a NewsPicks é uma das maiores e mais influentes plataformas de mídia socioeconômica do Japão. Pense nela como um híbrido entre um portal de notícias de alta qualidade (estilo The Economist ou Bloomberg) e uma rede social focada em negócios e tecnologia.
Pois bem, o Lady Oscar Fan Club Italia publicou a primeira parte da entrevista e, como o conteúdo estava em italiano, resolvi fazer uma tradução para o português. Confira abaixo, lembrando de prestigiar o trabalho da página original! Para quem não leu a Parte 1/3, basta [clicar aqui].
Vamos à tradução da segunda parte dessa conversa incrível com Ikeda-sensei:
Tradução: Riyoko Ikeda no WEEKLY OCHIAI — Parte 2/3.
Depois de relatar o nascimento de Oscar e o significado da liberdade no mangá, a sensei aceita responder a perguntas sobre o presente. Esta é a parte mais afiada e cortante da entrevista.
Ochiai lhe pergunta se o Japão de hoje é um país livre.
«É difícil. Depende de como se entende a liberdade. Talvez quem esteja do lado dos vencedores do capitalismo seja livre. Muitos outros não são.»
Ele também pergunta se vivemos em uma época de igualdade de gênero. A resposta dela é categórica:
«Não penso assim.»
E então, ela profere uma frase que serve como o título moral de toda a conversa:
«O fato de Berubara ainda ser tão requisitado pelas mulheres hoje em dia é também a prova de que a sociedade ainda não amadureceu.»
Sobre o mercado de trabalho feminino nos anos 1970 — época em que Berubara era publicado semanalmente na revista Margaret —, Ikeda recorda que as jovens eram contratadas apenas como secretárias ou para servir chá no escritório, e eram obrigadas a se demitir assim que se casavam.
Ela conta que não fez disso um tema consciente na época. Mas, depois, começou a receber cartas em massa de mulheres que trabalhavam, dizendo: «Eu também gostaria de ter um André ao meu lado.»
Quando questionada diretamente por Ochiai sobre a Inteligência Artificial, ela respondeu sem rodeios:
«Não utilizo e não quero ter envolvimento com isso. Temo que ela acabe tirando dos seres humanos muitas de suas capacidades criativas.»
Sobre a companhia Takarazuka Revue, ela trouxe uma revelação que vale a pena destacar: quando a adaptação de Berubara foi proposta em 1974, houve uma forte oposição interna dentro do grupo. O argumento era: «Um mangá no palco de uma companhia com a nossa tradição? Inadmissível.» O resto da história, bem... todos nós já conhecemos.
Bem, essa foi a tradução do resumo da entrevista, feita pela página Lady Oscar Fan Club Italia. Agradeço imensamente à Rafaella por ter disponibilizado, pois queria muito encontrar algum vídeo desse programa com Ikeda, mas infelizmente ainda não consegui. Pois bem, vamos aos comentários.
O Peso do Tempo e o Espelho de uma Sociedade Estagnada
A lucidez de Riyoko Ikeda aos 78 anos não é apenas admirável; é um eco contundente da própria força que ela imprimiu nas páginas da revista Margaret na década de 1970. Quando a sensei afirma que o fato de A Rosa de Versalhes (Berubara) continuar sendo uma obra tão requisitada e atual pelas mulheres hoje é um sinal de que a sociedade ainda não amadureceu, ela toca no ponto central de sua própria genialidade — e, simultaneamente, em uma ferida social aberta.
O que tornou Oscar François de Jarjayes um ícone imortal não foi apenas o glamour militar ou a estética sublime do Shoujo clássico. Foi o fato de Oscar personificar uma busca por autodeterminação e liberdade que desafiava as amarras de seu próprio tempo. Ao olhar para o Japão contemporâneo (e, por extensão, para o mundo atual) e perceber que as mulheres ainda buscam em Berubara um refúgio ou uma inspiração para suas lutas diárias, Ikeda nos lembra que a igualdade de gênero que ela desenhava há mais de 50 anos ainda enfrenta as mesmas barreiras estruturais.
O Cotidiano dos Anos 70 e o "Efeito André"
É fascinante notar como Ikeda-sensei menciona que a crítica social na época não era necessariamente um manifesto panfletário planejado, mas sim o reflexo inevitável de sua vivência como uma jovem mulher inserida em um mercado de trabalho profundamente machista. Nos anos 1970, o teto de vidro para as mulheres no Japão era explícito: o destino esperado era o casamento e o papel de dona de casa, enquanto o ambiente corporativo as enxergava apenas como figuras decorativas (as chamadas Office Ladies, que serviam chá).
Ao criar uma narrativa onde uma mulher exercia o comando e o poder, Ikeda dialogou diretamente com o subconsciente de uma geração de leitoras que sufocava nessa realidade. A revelação sobre o fluxo de cartas de mulheres trabalhadoras desejando "um André ao seu lado" é um insight psicológico riquíssimo. André Grandier representa o oposto do patriarcado vigente: ele é o homem que não se sente ameaçado pela grandeza de Oscar; ele não deseja dominá-la, mas sim sustentá-la, lutar lado a lado e respeitar sua individualidade. O "desejo por um André" era, no fundo, o desejo por um relacionamento baseado na igualdade e no respeito mútuo — algo que, infelizmente, muitas mulheres ainda sentem falta nas estruturas afetivas modernas.
A Resistência do Status Quo: O Caso Takarazuka
Outro ponto alto da entrevista é a revelação sobre a resistência interna da companhia Takarazuka Revue em 1974. Hoje, é impossível pensar no Takarazuka sem associá-lo imediatamente ao estrondoso sucesso de A Rosa de Versalhes, que historicamente salvou a companhia de uma crise financeira e definiu a era de ouro do teatro musical japonês.
Saber que a liderança e os tradicionalistas da época consideravam "inammissibile" (inadmissível) adaptar um mangá — uma mídia então vista por setores elitistas como "menor" ou puramente comercial — mostra o quanto Ikeda e os produtores ousados da época tiveram que quebrar barreiras para que o casamento perfeito entre o Otokoyaku (as atrizes que interpretam papéis masculinos) e a androginia aristocrática de Oscar acontecesse. Isso prova que Berubara sempre foi uma força disruptiva, subvertendo tanto a cultura pop quanto a alta cultura tradicional japonesa.
A Essência Humana diante da Inteligência Artificial
Por fim, a postura categórica de Riyoko Ikeda contra a Inteligência Artificial na criação artística reflete a mentalidade de uma autora que moldou sua carreira através do esforço físico, da pesquisa histórica minuciosa e da entrega emocional expressa na ponta da pena (G-Pen). Para uma artista que entende que a arte nasce das dores, das vivências e das imperfeições inerentes à experiência humana, a automação da criatividade surge como uma ameaça ao que nos torna únicos.
O posicionamento da sensei no WEEKLY OCHIAI — um programa voltado justamente para o debate tecnológico e o futuro da mídia — demonstra que ela não tem medo de nadar contra a correnteza dos discursos tecnocentristas. Ikeda defende o toque humano porque sabe que a alma de Oscar, o sacrifício de André e a tragédia de Maria Antonieta jamais poderiam ser replicados por cálculos probabilísticos. A arte de Berubara é visceral; e o visceral pertence estritamente aos seres humanos.
A última parte desta entrevista incrível sairá no próximo post! Não percam!







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Lady Oscar diz..
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